quinta-feira, 7 de março de 2013

DEUS ME LIVRE




O pastor - e infelizmente deputado – Marco Feliciano foi escolhido para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Digo infelizmente, porque abomino quando um sacerdote leva para a política suas convicções religiosas.

Religiões são estruturadas em cima de questões de fé e, como tal, não necessitam de fundamentos lógicos. Pelo contrário, ter fé é acreditar mesmo quando toda a lógica indica o contrário. Por isso, toda e qualquer religião abriga tantos dogmas em sua filosofia.

Considero que não há mal nenhum nisso. Pelo contrário: muitas vezes nossa percepção da realidade é limitada. E nesses momentos, apenas a fé (em Deus, no trabalho, nos amigos) pode nos ajudar a driblar esse problema.

Mas se a função da filosofia é transcender a lógica, a natureza da política é – ou deveria ser – a lógica. Principalmente no poder legislativo, onde as leis são confeccionadas de maneira igual a todo e qualquer cidadão. E como manter a igualdade da lei quando você está convicto que homossexuais são perversos e afro-descendentes são amaldiçoados? Ou ainda: por mais tolerante que seja sua religião, ela parte do princípio que a salvação só é possível por meio do que ela prega - senão, não pregaria.

Discorda do que eu escrevi? Então peço que você leia com atenção ao que o pastor com cara de cantor sertanejo já declarou publicamente:

“Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé, Isso é fato.”

“Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome...”

“Sendo possivelmente o 1o. Ato de homossexualismo da história.” (sobre a origem da homossexualidade ser africana)

“Bora cristãos! Mostremos nossa união e nossa força. Retuítem isso: Amamos os homossexuais mas abominamos suas práticas promíscuas”

Já que um sacerdote tem direito de meter os bedelhos onde não é chamado, um humorista como eu também pode meter seus bedelhos e fazer uma profecia, tal qual um sacerdote. E aí vai:

José Luiz, capítulo 0 - versículo 0: “O povo brasileiro é descendente de um ancestral amaldiçoado de Marcio Thomaz Bastos. Sobre este país repousará a maldição dos processos jurídicos contra artistas, humoristas e jornalistas, enquanto transbordarão generosamente as bençãos da impunidade e da simpatia popular sobre racistas, homofóbicos, intolerantes, corruptos e populistas.”

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

HUMOR É COISA DE CLASSE C



Sou humorista há 4 anos e publicitário há 18 anos. E tem algo que sempre achei muito estranho envolvendo essas duas atividades: a visão de algumas empresas de que humor é voltado quase que exclusivamente à classe C. A única explicação que pude pensar é a de que rico não precisa de piada, rico ri à toa.

Antes de tudo, me parece um pensamento elitista e arrogante: deixa a classe C dando risada, enquanto nós - das classes A e B - tratamos das coisas sérias. Também vejo com um pouco de tristeza essa visão: vou trabalhar a vida inteira para ficar rico e então, nunca mais poder ter humor. Ou pior: vou nascer rico e nunca dar uma risada na vida. Puta que pariu, mas que vida cruel: só posso escolher entre ser pobre ou ser triste?

E se fizéssemos uma divisão de classes diferente? Em vez de classificar as pessoas por condição econômico-social, vamos classificá-las por condição cultural. Aí vamos ver que, independente de classe econômico-social, existe humor para todo tipo de gosto. Desde o mais escrachado (esse sim, voltado à classe C cultural) até o mais questionador. E, sem preconceitos, cada um tem seu devido valor.

Não estou defendendo que se use o humor em toda e qualquer situação. Ele é apenas uma das ferramentas da comunicação entre as pessoas: como são a emoção, o argumento racional e tantas outras ferramentas. Em algumas situações o humor é altamente eficiente: para mensagens questionadoras ou para trazer leveza a mensagens muito complexas, por exemplo. Em outras situações ele atrapalha e realmente deve ser descartado (tem hora que uma piada é a pior coisa a ser dita). Agora, pra quem tem preguiça de analisar, basta cagar a regra: humor é pra pobre. Ou você contaria uma piada num velório, só porque é de um sujeito pobre?

Por isso, aqueles que conseguem usar o humor na sua comunicação de maneira adequada (sejam marcas, jornalistas ou artistas) alcançam rapidamente uma posição de destaque. Por um simples motivo: a concorrência é pífia. Ridícula. E repetitiva. Basta ver os canais de TV, os perfis de Facebook e as palestras corporativas repletas de mensagenzinhas motivacionais e de auto-ajuda. Quando aparece uma mensagem original, chama atenção como uma Gisele Bundchen no meio de uma multidão de Carlitos Tevez.

Só pra finalizar: em abril, Jerry Seinfeld vai fazer duas apresentações em Las Vegas e cada ingresso custa até U$180 (cerca de R$360). E provavelmente as duas vão lotar. Se rico não gosta de humor eu te pergunto: quem é que paga os ingressos pra esse bando de pobres assistir?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

XI, MARKINHO



Há algumas semanas, o Facebook implantou uma nova guideline para posts patrocinados: a partir de agora, um post só poderá ser divulgado se o texto ocupar no máximo 20% da área total. Qualquer proporção acima desta é automaticamente reprovada.

Como a medida foi tomada sem qualquer explicação prévia, fiquei sem entender bem o critério: por que esta campanha agressiva contra o texto? Porque uma imagem com pouco texto é aceitável e um texto com pouca imagem não é?

Imagine que você é um cartunista que queira divulgar seu trabalho por meio de posts patrocinados: se tiver muito texto nos balõezinhos de fala, não pode. Se você tiver uma editora: pode divulgar a capa do livro e o nome do autor, mas nem pense em colocar uma resenha. Se for um articulista: nem a pau querer divulgar esses seus artigos cheios de letrinhas.

No meu caso, uso posts patrocinados para divulgar meu show de comédia stand up. Se não posso colocar o endereço, como as pessoas vão chegar ao lugar certo? Se não posso colocar o horário, como vão chegar na hora certa? Se não posso colocar o nome dos artistas convidados, como vão saber a programação? E nem mímica eu posso fazer, pois tenho apenas uma mão.

Acho importante que o Facebook repense essa restrição. Para muitos anunciantes, o texto é fundamental para a divulgação eficiente de seus produtos e serviços. E quem está disposto a pagar por uma mídia deveria ter acesso a essa mídia. Simples assim.

Tá certo que o Mark Zuckerberg é de uma geração que pouco lê. Mas note na foto lá em cima, como ele divulga suas inovações para o mercado e os investidores: se não estou enganado, parece que as palavras estão ocupando bem mais de 20% do espaço. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

QUEM NÃO GOSTA DE PIADA BOM SUJEITO NÃO É



Um dos sambas mais conhecidos do Brasil é o “Samba da Minha Terra”, de Dorival Caymmi. Que eu gosto muito, aliás. Mas gostaria de atentar para um trecho da letra: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”.

Como assim? Eu sou deficiente físico e me senti ofendido com essa estrofe. Como um grande compositor como Caymmi pôde excluir os deficientes do samba? Quem tem problemas no pé não pode curtir um bom samba em paz? E ainda a insinua que deficientes mentais e físicos não são bons sujeitos. Está na hora da cultura popular tomar jeito e respeitar a diversidade.

Achou ridículo? Pois eu achei. É óbvio que não penso o que eu escrevi acima, mas tem muita gente que pensa dessa maneira. Só que não criticam o Caymmi, porque curtir MPB antiga pega bem, é hype. Mas quando se trata de humoristas, voltam toda sua fúria cega contra as piadas (afinal humoristas viraram pop e, por isso, não são hype).

Da mesma maneira que é patético eu reclamar da letra do Caymmi, também é patético quando alguém reclama de uma piada, pura e simplesmente pelo prazer de reclamar. O que o Caymmi fez foi brincar com o fato de um doente do pé não conseguir dançar e por isso não gostar de samba. É fato e ponto final: contra fatos, não há argumentos.

Quando uma piada brinca com o fato de um gay gostar de pinto, um negro ser mais escuro ou um deficiente não se locomover, ok. São fatos e gay nenhum deveria considerar ofensa dizer que ele gosta de pintos – da mesma maneira que o negro não deve considerar ofensivo dizer que ele é mais escuro ou o deficiente, que tem problemas de locomoção. Afinal o preconceituoso, neste caso, seria o próprio.

Até mesmo brincar que português é burro ou judeu é pão-duro não é ofensivo. Trata-se de uma figura de linguagem, a metonímia (lembra das aulas de português?). Português interpreta quase tudo ao pé da letra e judeu costuma ser bom de negócios – a piada, neste caso, nada mais é que uma caricatura sobre esses aspectos e, como caricatura, não pretende ser um retrato fiel e sim uma representação confessamente exagerada e surreal. E ninguém ao olhar para um quadro do Salvador Dali, diria: - Vamos processar, relógios não derretem.

Obviamente que não podemos cometer calúnias e difamações. Se alguém fizer uma piada dizendo que homossexualidade é doença, negro é inferior ou deficiente é incapaz, aí sim reclamem – e com razão. Não porque foi ofensivo, mas porque é mentira. E ninguém tem direito de caluniar ninguém.

Mas quando alguém cita as diferenças, fazendo uma poesia, uma escultura ou uma piada, parem de reclamar. Ficou ofendido? Paciência. Você também tem o dever de respeitar a diversidade. Neste caso, de opinião.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

PRA QUEM AMA HOMOSSEXUAL E BANDIDO



Ontem assisti na internet a polêmica entrevista do Silas Malafaia à Marília Gabriela. Obviamente provoca nojo em qualquer pessoa que tenha lido um livro na vida (exceto o Mein Kampf).

Impressionante como, em nome de Deus, algumas pessoas são permitidas a falar as mais descabidas bobagens e adotar uma postura mentirosa em relação aos fatos.

Mentirosa, por exemplo, quando diz que nenhuma verdade científica da Bíblia foi desmentida. A Bíblia, como sabemos, não é um livro científico. É um livro sobre fé e, principalmente, um manual de conduta para os cidadãos da época. E como tal, repleto de metáforas.

Ou seja, quais seriam as tais verdade científicas citadas pelo milionário pastor? Quem, sem algumas doses de vodka, poderia crer que uma mulher foi feita da costela de um homem, que por sua vez foi feito do barro? Ou que outra mulher possa ter dado à luz um menino sem antes manter relações sexuais? Não estou debochando da Bíblia, muito pelo contrário: se Jesus pregava por meio de parábolas, por que a Bíblia não poderia usar metáforas?

Mas a grande polêmica do programa foi em relação aos homossexuais. A Marília Gabriela, como grande parte das pessoas, defendeu que a homossexualidade é do próprio organismo e não uma escolha do indivíduo, como defendeu Silas.

Sinceramente, para mim pouco importa se a pessoa já nasceu gay ou se é uma opção sexual dela. Da mesma maneira, pouco importa se ela quer transar com homens, mulheres ou, como o Serguei, plantas - neste caso, sugiro as trepadeiras. Antes que algum militante me encha o saco, vou usar um exemplo que conheço: para a cidadania, é indiferente se o sujeito nasceu deficiente ou se ficou deficiente depois de um acidente.

Silas ainda defendeu, quase aos berros, que um casal de gays ou de lésbicas é incapaz de criar filhos. Mas não deu nenhum argumento que defendesse sua tese. Disse também que a união entre pessoas do mesmo sexo é pecado porque é incapaz de gerar filhos. Então uma pessoa estéril (ou que use camisinha) também não pode transar sem que arda pela eternidade no caldeirão de Satã?

E no auge de sua tresloucada entrevista, disse que ama os homossexuais, como ama os bandidos. Sei não, mas depois de tantos gritinhos e essa declaração de amor aos gays e bandidos, tô desconfiado que esse tal de Silas é baitola.