terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

HUMOR É COISA DE CLASSE C



Sou humorista há 4 anos e publicitário há 18 anos. E tem algo que sempre achei muito estranho envolvendo essas duas atividades: a visão de algumas empresas de que humor é voltado quase que exclusivamente à classe C. A única explicação que pude pensar é a de que rico não precisa de piada, rico ri à toa.

Antes de tudo, me parece um pensamento elitista e arrogante: deixa a classe C dando risada, enquanto nós - das classes A e B - tratamos das coisas sérias. Também vejo com um pouco de tristeza essa visão: vou trabalhar a vida inteira para ficar rico e então, nunca mais poder ter humor. Ou pior: vou nascer rico e nunca dar uma risada na vida. Puta que pariu, mas que vida cruel: só posso escolher entre ser pobre ou ser triste?

E se fizéssemos uma divisão de classes diferente? Em vez de classificar as pessoas por condição econômico-social, vamos classificá-las por condição cultural. Aí vamos ver que, independente de classe econômico-social, existe humor para todo tipo de gosto. Desde o mais escrachado (esse sim, voltado à classe C cultural) até o mais questionador. E, sem preconceitos, cada um tem seu devido valor.

Não estou defendendo que se use o humor em toda e qualquer situação. Ele é apenas uma das ferramentas da comunicação entre as pessoas: como são a emoção, o argumento racional e tantas outras ferramentas. Em algumas situações o humor é altamente eficiente: para mensagens questionadoras ou para trazer leveza a mensagens muito complexas, por exemplo. Em outras situações ele atrapalha e realmente deve ser descartado (tem hora que uma piada é a pior coisa a ser dita). Agora, pra quem tem preguiça de analisar, basta cagar a regra: humor é pra pobre. Ou você contaria uma piada num velório, só porque é de um sujeito pobre?

Por isso, aqueles que conseguem usar o humor na sua comunicação de maneira adequada (sejam marcas, jornalistas ou artistas) alcançam rapidamente uma posição de destaque. Por um simples motivo: a concorrência é pífia. Ridícula. E repetitiva. Basta ver os canais de TV, os perfis de Facebook e as palestras corporativas repletas de mensagenzinhas motivacionais e de auto-ajuda. Quando aparece uma mensagem original, chama atenção como uma Gisele Bundchen no meio de uma multidão de Carlitos Tevez.

Só pra finalizar: em abril, Jerry Seinfeld vai fazer duas apresentações em Las Vegas e cada ingresso custa até U$180 (cerca de R$360). E provavelmente as duas vão lotar. Se rico não gosta de humor eu te pergunto: quem é que paga os ingressos pra esse bando de pobres assistir?

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