Sou
humorista há 4 anos e publicitário há 18 anos. E tem algo que sempre achei
muito estranho envolvendo essas duas atividades: a visão de algumas empresas de
que humor é voltado quase que exclusivamente à classe C. A única explicação que
pude pensar é a de que rico não precisa de piada, rico ri à toa.
Antes
de tudo, me parece um pensamento elitista e arrogante: deixa a classe C dando
risada, enquanto nós - das classes A e B - tratamos das coisas sérias. Também
vejo com um pouco de tristeza essa visão: vou trabalhar a vida inteira para
ficar rico e então, nunca mais poder ter humor. Ou pior: vou nascer rico e
nunca dar uma risada na vida. Puta que pariu, mas que vida cruel: só posso
escolher entre ser pobre ou ser triste?
E se
fizéssemos uma divisão de classes diferente? Em vez de classificar as pessoas
por condição econômico-social, vamos classificá-las por condição cultural. Aí
vamos ver que, independente de classe econômico-social, existe humor para todo
tipo de gosto. Desde o mais escrachado (esse sim, voltado à classe C cultural)
até o mais questionador. E, sem preconceitos, cada um tem seu devido valor.
Não
estou defendendo que se use o humor em toda e qualquer situação. Ele é apenas
uma das ferramentas da comunicação entre as pessoas: como são a emoção, o
argumento racional e tantas outras ferramentas. Em algumas situações o humor é
altamente eficiente: para mensagens questionadoras ou para trazer leveza a
mensagens muito complexas, por exemplo. Em outras situações ele atrapalha e
realmente deve ser descartado (tem hora que uma piada é a pior coisa a ser
dita). Agora, pra quem tem preguiça de analisar, basta cagar a regra: humor é
pra pobre. Ou você contaria uma piada num velório, só porque é de um sujeito
pobre?
Por
isso, aqueles que conseguem usar o humor na sua comunicação de maneira adequada
(sejam marcas, jornalistas ou artistas) alcançam rapidamente uma posição de
destaque. Por um simples motivo: a concorrência é pífia. Ridícula. E
repetitiva. Basta ver os canais de TV, os perfis de Facebook e as palestras
corporativas repletas de mensagenzinhas motivacionais e de auto-ajuda. Quando
aparece uma mensagem original, chama atenção como uma Gisele Bundchen no meio
de uma multidão de Carlitos Tevez.
Só
pra finalizar: em abril, Jerry Seinfeld vai fazer duas apresentações em Las
Vegas e cada ingresso custa até U$180 (cerca de R$360). E provavelmente as duas
vão lotar. Se rico não gosta de humor eu te pergunto: quem é que paga os
ingressos pra esse bando de pobres assistir?



