Um
dos sambas mais conhecidos do Brasil é o “Samba da Minha Terra”, de Dorival
Caymmi. Que eu gosto muito, aliás. Mas gostaria de atentar para um trecho da
letra: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente
do pé”.
Como
assim? Eu sou deficiente físico e me senti ofendido com essa estrofe. Como um
grande compositor como Caymmi pôde excluir os deficientes do samba? Quem tem
problemas no pé não pode curtir um bom samba em paz? E ainda a insinua que
deficientes mentais e físicos não são bons sujeitos. Está na hora da cultura
popular tomar jeito e respeitar a diversidade.
Achou
ridículo? Pois eu achei. É óbvio que não penso o que eu escrevi acima, mas tem
muita gente que pensa dessa maneira. Só que não criticam o Caymmi, porque
curtir MPB antiga pega bem, é hype. Mas quando se trata de humoristas, voltam
toda sua fúria cega contra as piadas (afinal humoristas viraram pop e, por
isso, não são hype).
Da
mesma maneira que é patético eu reclamar da letra do Caymmi, também é patético
quando alguém reclama de uma piada, pura e simplesmente pelo prazer de
reclamar. O que o Caymmi fez foi brincar com o fato de um doente do pé não
conseguir dançar e por isso não gostar de samba. É fato e ponto final: contra
fatos, não há argumentos.
Quando
uma piada brinca com o fato de um gay gostar de pinto, um negro ser mais escuro
ou um deficiente não se locomover, ok. São fatos e gay nenhum deveria
considerar ofensa dizer que ele gosta de pintos – da mesma maneira que o negro
não deve considerar ofensivo dizer que ele é mais escuro ou o deficiente, que
tem problemas de locomoção. Afinal o preconceituoso, neste caso, seria o
próprio.
Até
mesmo brincar que português é burro ou judeu é pão-duro não é ofensivo.
Trata-se de uma figura de linguagem, a metonímia (lembra das aulas de
português?). Português interpreta quase tudo ao pé da letra e judeu costuma ser
bom de negócios – a piada, neste caso, nada mais é que uma caricatura sobre
esses aspectos e, como caricatura, não pretende ser um retrato fiel e sim uma
representação confessamente exagerada e surreal. E ninguém ao olhar para um
quadro do Salvador Dali, diria: - Vamos processar, relógios não derretem.
Obviamente
que não podemos cometer calúnias e difamações. Se alguém fizer uma piada
dizendo que homossexualidade é doença, negro é inferior ou deficiente é incapaz,
aí sim reclamem – e com razão. Não porque foi ofensivo, mas porque é mentira. E
ninguém tem direito de caluniar ninguém.
Mas
quando alguém cita as diferenças, fazendo uma poesia, uma escultura ou uma
piada, parem de reclamar. Ficou ofendido? Paciência. Você também tem o dever de
respeitar a diversidade. Neste caso, de opinião.

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